terça-feira, 29 de março de 2011

Opostos

Fui ao shopping para almoçar e encontrei um casal de colegas que não converso há anos. Desci para passear um pouco antes de retornar ao quarto sagrado para o descanso necessário de domingo. Resolvi comprar chocolate, parei em frente à loja, sozinha, e vi, também sozinha, uma mulher madura sentada lendo um panfleto em frente à loja. Sentei.

– A Loja A está aberta? – Não vi, subi de escada rolante. – Poxa, eu subi de elevador. Vou esperar esta abrir para comprar chocolate. – Eu não gosto muito de chocolate, a não ser o que tem passas, não sou chegada a doces. – Eu só compro muito doce, estou querendo as drageadas de licor. – Meu corpo não aceita muitos doces. Por exemplo, se eu for comer geléia tem que ser a menos doce, de framboesa, de amora... – Nossa! Eu não gosto de geléia, nem as doces. Gosto de virar leite condensado direto na boca.
Rimos um pouco.
- Gosto de comer folhas, e descobri que as com aquele bichinho preto, significa que não tem agrotóxico nas folhas. – Gosto de carne e massas, minha família é italiana. – Ah, minha família é italiana também, mas tive que me reeducar na alimentação. – É, eu não gosto de brócolis, mas hoje senti muita vontade de comer brócolis e coloquei no prato. – Hahaha, temos os gostos bem diferentes. – Hahaha, muito!
Rimos um pouco mais, e já estávamos sentadas uma de frente pra outra.
- Vou à loja de vinhos. Sabe como é, estou com 71 anos, mas adoro tomar vinho. – Adoro vinho! Gosto de tinto suave. – Ih, eu só tomo vinho seco, nada de doce.
A loja abriu, entramos cada uma para um lado, peguei minhas drageadas de licor, ela pegou as drageadas de passas. – Vou com você na loja de vinho, quem sabe eu aprenda algo, né? – Ah, vamos sim, tenho que comprar três garrafas, duas para presente. – Sei.
Em direção à loja ainda fechada. A funcionária estava na porta esperando outro funcionário para abrir a adega. Entramos. Fui caminhar pelo estabelecimento e descobrir novos nomes, novos sabores e cheiros. Ela ficou no balcão conversando sobre os tipos de uvas e safras e tudo aquilo que mal entendo. Saímos da loja, eu já estava carregando as três garrafas da experiente mulher.
- Vou para o outro lado de Botafogo. – Eu moro aqui na praia de Botafogo, neste quarteirão. – Vou pegar um táxi. – Vou a pé. – Você almoçou aqui? – Sim e você? – Comi paeja, salada de maçã e molho branco. – Nossa que paladar! Eu comi hot Filadélfia, brócolis que não gosto muito, e salmão. – Ih, isso é comida japonesa, não é? Eu não como coisas cruas! Gosto de comida chinesa. – Haha, detesto comida chinesa. – Hahaha o que temos em comum? – Não sei.
Chegamos à porta do shopping, ambas acendemos um cigarro filtro branco.
- Poxa eu estava lendo um panfleto da igreja, porque domingo geralmente eu fico a tarde toda lá. – Eu não freqüento igrejas, no máximo vou ao centro umbanda. – Haha, sou metodista! – Somos muito diferentes mesmo. – Temos que escrever um filme. – Eu posso escrever um roteiro.
Apreciamos pouco a vista da praia de Botafogo. Olhamos ao redor, demos uns tragos.
- Eu sempre comprei queijo minas em uma fazenda, nada de indústria, e um dia vi como se matavam os porcos. – Ah, meu tio trabalhou numa fazenda e vi também, mas adoro carne de porco. – Eu não posso comer porco. Um dia, grávida, comi porco na casa da sogra e fui direto para o hospital, quase tive um aborto.
Silêncio segundos.
- Depois que vi que se você joga um pouco de leite em cima da carne do porco, começam a sair vermes, nunca mais comi. – Eu vi um porco degolado, com as tripas saindo, e ele estava de ponta cabeça, coitado, fiquei assustada, mas adoro porco. – Minha família por parte de pai tinha dinheiro, então, viajávamos de avião particular de uma fazenda a outra, nas terras em São Paulo. Eu sou baiana, mas moro ha 61 anos no Rio de Janeiro. – Sou paulista, minha família veio do pé descalço, e moro aqui tem 6 anos. – Meu tio era dono de tantas terras, que colocaram o busto dele na praça da cidade. – Meu tio era caseiro da fazenda onde vi os porcos. – Meu pai tem o sobrenome leite. – Minha mãe tem o sobrenome leite. Até que enfim encontramos algo em comum.
Rimos mais um bocado, apagamos o cigarro, voltamos ao mesmo lugar onde as garrafas estavam postas ao chão.
- Como é seu nome? – Ieda. E você? – Carol. Passa seu telefone. – Me dá o seu também, mas eu só posso de noite. – Eu trabalho até às 22h, não posso nunca a noite, só fim de semana. – Aos fins de semana cuido da minha mãe de 96 anos.
Olhamos o movimento na calçada, uma criança de cueca veio até a porta de vidro e gritou para a mãe – Shopem, Shopem, Shopem!!! Achamos engraçado o jeito que ele falou, mas voltamos a nos olhar. Olhei para o celular e vi as horas. - Nossa preciso descansar. - Vamos nos falar. - Prefiro nos encontrar para escrever a história.
Beijei o rosto dela e vice-versa, demos um abraço meio tímido.
- Olha, eu não gosto de beijo, até isso, hoje, eu fiz. Haha. – Eu também não ligo muito para beijo, acho um só já de bom tamanho. – Gosto de abraço. – Também gosto muito de abraço. Viu só, duas coisas em comum.
Rimos mais um pouco e demos as costas, afinal ela mora no oposto que eu.



8 comentários:

encontreumconto disse...

Carol, interessante o tema do seu discurso mas tenho uma observação a fazer. Todo discurso direto (que usa travessão) deve ser escrito em parágrafos. ta meio confuso o diálogo... aliás ele possui um caráter de monólogo. é preciso separar as falas, as suas em um parágrafo e as dela em outro.
Explore mais as suas ideias, seus argumentos.
Lembre-se: quando você escreve um texto sempre escreve pensando em alguém que irá lê-lo.
Abraço, beijos e até.

LATAN disse...

Todo imã tem opostos e continuam unidos num só atrair ou repelir, o gosto pelo mar, pela praia de RJ, por degustar doces ou salgados juntos acompanhados ou não d queijos ou vinhos já t da a certeza d q na vida nem todos são iguais mas é possivel desfrutar d momentos agradaveis ao som do mar e ao sabor dessa brisa maravilhosa q vc escolhheu curtir pra poder contar seus contos... Bjos

vanespink disse...

Carol, Gostei ..............muito! Lembrei dos vinhos que que a gente experimentava ... e tudo mais ....
Saudades :)

Ângelo disse...

O texto me fez lembrar que ainda devo vinhos para você. Já fazem 10 anos...

Chico Arruda disse...

Já te falei da minha proposta para os teus textos, assim como uma conversa informal, corriqueira de duas pessoas que se encontram ao acaso o texto deve seguir o mesmo ritmo, pense na proposta...Beijos!!!

Carol Bonando disse...

eu tentei separar sim - encontreumconto - mas o blog nao me deixou editar o texto, eu copiei do word e tava ótimo, na publicação nao fica editado, como eu faço?

Paulo Tamburro disse...

OH CAROL,

prometo retornar mais tarde ou amanhã.

por enqunto deixo essa delicia de música em sua homenagem:

http://www.youtube.com/watch?v=5FotLUqMZyU

Um abração carioca!

Nilson Barcelli disse...

Duas pessoas com gostos e hábitos diferentes podem ser amigas. E, se o forem, essa amizade é mesmo verdadeira.
Beijos, querida amiga.

PS: Carolzinha, se eu não te tenho visitado é porque não me lembro. E, se não me lembro, é porque tu também não apareces e não me lembras... e vice-versa... mas isso não quer dizer que não sejamos amigos... eu sou...