quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

A filha que ainda não tive

A filha que ainda não tive

Telefonaram-me 17 e tantas da tarde. Vesti-me de branco, o que quase nunca faço. Lavei as mãos como sempre faço. Com o toque suave dos dedos apertei a testa, olhando-me no espelho refleti lentamente sobre os fatos. Minha avó estava pronta para morrer, deitada singelamente em sua caminha macia, enfeitado com as margaridas que eu havia levado pela manhã, o criado mudo de ferro.
Fiquei em pé por alguns minutos, encostada no portal observando sua respiração leve. De plumas respirantes no quarto jazia uma mácula desconhecida. Acompanhei passo a inspiração, passo a expiração daquela que um dia concebeu minha mãe.
– Olá, avó.
Yaya não se mexeu. Yaya demonstrou carinho com seu rostinho pálido, me deixando segurar sua mãozinha fria de veias aparentes. Com as mãos feito conchas, planei a energia em cima de seu corpo, uma na cabeça e outra no peito, traduzindo luz em uma única ação.
– Yaya, vou te contar uma história.

“O nome da minha filha será Morgana. Se for do Artur se chamará Fernando. Se for de Fernando se chamará Artur. Eu queria os dois nomes, porque teria dois filhos. Mas fui cair na besteira de me apaixonar pelos dois, ao mesmo tempo. Vai ser uma menina. Agora é a vez da escorpiana Morgana. Terá sobrancelhas pretinhas e cabelo escorrido, preto também. Meu olhos, o nariz do Fernando, a altura de Artur, e a inteligência de nós três, somada. Será uma menina nerd e gostosa para enlouquecer a mãe. Nascerá saudável, e manter-se-á saudável como uma índia até sua morte. Sem fé e muita coragem. Yaya, estou tentando profetizar minha filha imaginária, por isso, trate de ficar viva até lá, para você ver só o meu dom. Ela vai ter um império, os homens derramarão lagrimas por ela. Será rica, dona de alguma coisa grande. Morgana vai gargalhar e contagiar toda a cidade, será sensual, possuirá um riso de canto de boca, dentes grandes como os meus, mas ela não vai fumar, então, serão brancos. Também não come carne, mas toma uma birita de quando em vez, e provavelmente a bebida será vinho tinto suave. Vai dar preferência ao frio, como eu. Mas, vai gostar de nadar na praia, como os pais...”

E assim, minha avó não abriu os olhos para ver minha última imagem. Não respirou profundamente para simbolizar um adeus enquanto estive com as mãos repousadas sutilmente em seu corpo. Yaya viajou para a brancura sem ao menos esticar as pestanas. Ela foi para mim o que um dia minha filha será.

19 comentários:

Claudio Nascimento disse...

"Ela foi para mim o que um dia minha filha será"... me arrepiei com isso.

Maravilhoso o texto. Vc é realmente muito boa na arte de poetizar o cotidiano.

Não sei se esse texto retrata um fato real da sua vida (ou que vc tenha presenciado), mas no futuro, quando olhar para os seus filhos vc vai entender melhor o que eles representam.

Bjs

cristina disse...

recebi seu recado e resolvi ler todos q ainda não havia lido, claro q me amarro.rs São realmente mto bons, vc tem uma alta dose de imaginação e é incrivelmente sensível.te amo!

Jonhy disse...

Caramba...
Vc foi fundo mesmo, ein !!!!

Amo seu modo de escrever...
Olha as visceras de novo !!!!

Bejo

Menina do Rio disse...

A tua Morgana será linda, como uma fada!

Beijinhos

André Lobão disse...

Carol, vc realmente é muito talentosa. O mundo precisa te descobrir.

Parabéns!

Mikaellis disse...

Tenho um pouco de medo da vida. Não de tudo é claro, mas tenho medo do escuro, do que ainda não posso enxergar. Morte e vida, sei que irão me afetar algum dia, de repente, não vão esperar que eu esteja preparado, que eu possa entendê-las.
Mas o caminho tem de ser seguido, não importando o quão obscuro parece. As folhas irão cair, as pessoas irão andar e o Sol voltará todas as manhãs. Morte e vida.

▒▓█► JOTA ENE ® disse...

Muito bom mesmo, sim foi arrepiante.

Bjs ___________ fotografados!

PS - Vc viu o premio que lhe atribuí no post de 29 Nov. 2008

PS1 - Tente agora comentar, espere que a janela carregue completamente antes de dar o ok. Ainda ninguém se queixou até hoje, estranho.

liverj disse...

pô carol lembrei da minha vó q faleceu apouco tempo, infelizmnte não pude vê-la mas espero q esteja em um bom lugar ao lado meu avô. perto de DEUS e cuidando de nós.
é, a vida é estranha...
carol,carol,carol,carol....

Thiago disse...

Carolzinha...esse foi emocionante! lindo d++.

Parabens!

Zana Queiroz disse...

profundo amiga..muito profundo...
adorei a " mãozinha com veias aparentes" lembrei da minha vozinha que já foi!

bjus menina...e continue assim...esse rio de poesia da vida!

Guilherme disse...

Muito sensível vc, menina. Parabéns!! Gostei muito do que escreveu. Realmente bonito.

Cascais disse...

legal Carol isso que escreve... tanta coisa passa no nosso pensamento qdo a gnt ta assim com um sentimento... e ao mesmo tempo, mil coisas acontecendo... e você, intensa, ainda há de sentir saudade imensa... saudade assim... dos tempos que se vão, dos que chegam e dos que chegarão, concatenadamente...
boa fruição tenho deste...

Arion disse...

Gostei muito dos teus textos. Vou voltar. :)

PoesiaMGD disse...

Gostei de sua escrita e deixo um convite:

http://www.escritartes.com/forum/index.php?referre

Abraço

Ângelo disse...

Pelo que acompanho aqui no seu blog, este foi o texto mais comentado. Está realmente muito emocionante.

Adoro-te Carol.

Ângelo disse...

Ah tá bom vai, tem alguns com mais comentários, mas esse está acima da média, que por sinal, é altíssima.

Mais bejos!

Vivian Portela disse...

Passando pra dar um Oi, depois de tanto tempo.

Ótimo texto, Morgana. srsrs


Beijo Grande Carol

Dri disse...

Ana!!

Que lindo... adorei!
Vou recomendar!!

Acho que vc já pode começar ganhar dinheiro com isso, viu! rsss

BJu, toda sorte!

Alexandra disse...

Lindo, lindo, o seu texto!